Por Cássia Kerlinner
Este texto integra as publicações de setembro do Casa e Rua em apoio ao Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio.
Há um cheiro que me persegue. Não é o de perfume barato, nem o de comida queimada. É aquele odor mofado, quase doce, que insiste em voltar nas roupas que eu jurei ter lavado direito. Às vezes tiro a peça do varal com a sensação de limpeza, e, horas depois, ao vestir, percebo: está lá. O mau cheiro voltou.
No começo, eu culpava a máquina. Depois, o sabão. Só muito mais tarde entendi que o problema não estava só no tecido — estava no jeito como eu estava vivendo.
A roupa que seca por dentro e mofa por fora
O mau cheiro nas roupas limpas costuma aparecer quando a umidade fica presa no tecido: a peça demora a secar, a máquina não foi limpa por dentro, o excesso de sabão cria uma película que aprisiona bactérias. É um problema de secagem incompleta, não de falta de limpeza.
Achei essa explicação curiosa demais para deixar só na lavanderia. Porque eu conheço bem essa sensação — a de estar, por fora, absolutamente em ordem, e ainda assim carregar um cheiro que nenhum banho tira.
Aviso: nos parágrafos a seguir eu falo sobre um período em que tive pensamentos suicidas. Se esse é um assunto delicado para você agora, cuide de si e leia com calma — ou pule para a última parte do texto, onde deixo um contato de apoio.
Quando a vida cheira a mofo
Houve um tempo em que eu acordava, vestia uma roupa limpa e, ainda assim, me sentia suja. Não de sujeira visível, mas de um cansaço que nenhuma água quente resolvia. Havia dias em que o peso era tanto que eu pensava: “E se eu simplesmente não levantasse?” O suicídio, naquela época, não era um plano — era um sussurro. Uma ideia que aparecia nas horas mais silenciosas, quando a casa estava quieta e a roupa lavada esperava no varal.
Não vou romantizar aquele período, nem dizer que “tudo passa” como se fosse um mantra mágico. Mas posso dizer o que fui aprendendo, aos poucos, dobrando roupa por dobrada: o mau cheiro volta quando a gente deixa a vida mofar por dentro.
Quando a rotina vira só uma sequência de obrigações, quando a gente não areja o quarto, não abre a janela do peito, não limpa a máquina por dentro — o cheiro volta. E, com ele, a pergunta recomeça.
A resposta que encontrei não estava nos grandes gestos. Estava nos pequenos rituais. Tirar a roupa da máquina assim que o ciclo termina. Deixar o sol bater no tecido. Ligar para alguém quando o silêncio ficava grande demais para caber sozinho em mim. Entender que cuidar de si não é frescura — é sobrevivência, e às vezes sobrevivência tem número de telefone.
Viver intensamente, mas com cuidado
Há quem diga que viver intensamente é se jogar sem rede. Eu discordo. Viver intensamente, para mim, é escolher ficar. É levantar mesmo quando o corpo pede para não. É lavar a roupa, estender, dobrar, guardar. É entender que há beleza em seguir algumas regras que nos protegem: dormir em horário razoável, comer algo que nutra, tomar banho, trocar a roupa de cama, arejar o quarto.
Não se trata de uma existência sem arroubos. Eu ainda quero paixão, ainda quero riscos calculados, ainda quero dias em que o mundo pareça pequeno diante do que sinto. Mas quero tudo isso com cuidado — quero poder ir dormir sabendo que fiz o possível para estar viva no dia seguinte.
O cheiro da vida cuidada
Hoje, quando sinto aquele odor mofado numa roupa que lavei, não me culpo. Entendo: algo ficou úmido demais, tempo demais. Precisava de mais ar, mais sol, mais atenção. E eu faço de novo — lavo, enxáguo, estendo, espero o tempo certo.
Ir se deitar e acordar com roupas limpas é bom não porque a roupa seja sagrada, mas porque ela é sinal de que alguém cuidou de alguma coisa naquele dia. De que a umidade não venceu.
Se o mau cheiro tem voltado nas suas roupas — e em algo mais do que suas roupas —, comece por uma peça só. Um banho. Uma janela aberta. Uma noite em lençóis limpos. Não precisa ser tudo de uma vez.
Se você tem pensado em desistir da vida, não passe por isso sozinha ou sozinho. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br. Ligar não custa nada — nem coragem, nem dinheiro, nem orgulho.
