Por Cássia Kerlinner
Outro dia, eu estava no ônibus, voltando para casa, e comecei a reparar nos corpos ao meu redor. Não de um jeito invasivo — de um jeito de quem olha pela janela e vê a cidade passar. Mas, naquele dia, não era a cidade que estava passando. Eram as pessoas. E os corpos delas.
Havia um homem sentado com os ombros curvados para frente, como se carregasse um peso invisível. Uma mulher em pé, segurando o corrimão com força, o corpo todo tensionado, pronta para o próximo solavanco. Um jovem de fones no ouvido, a cabeça baixa, o pescoço dobrado, o corpo ausente. E eu me peguei pensando: o que a cidade faz com a gente?
Não é uma pergunta nova. Todo mundo que mora em cidade grande já se fez essa pergunta — ou pelo menos já sentiu o cansaço que vem dela. Mas, naquele dia, a pergunta veio com um corpo. O meu. Sentei-me mais ereta, respirei fundo, e percebi o quanto eu também estava encolhida. Ombros para frente. Queixo baixo. Joelhos juntos. O corpo todo comprimido num espaço que mal cabia.
A cidade impõe um ritmo. E a gente aprende a acompanhar. Aprende a andar rápido, a não olhar nos olhos, a desviar do outro, a se encolher para caber no metrô, no elevador, na fila. Aprende a ocupar o mínimo de espaço possível — como se o corpo fosse um estorvo. E, aos poucos, a gente vai se esquecendo de que o corpo não é só um veículo para chegar ao trabalho. Ele é a gente. Ele sente. Ele respira. Ele existe.
Eu demorei para entender isso. Durante muito tempo, eu achei que o cansaço era normal. Que a tensão nos ombros era o preço de viver numa cidade grande. Que o corpo curvado era só o jeito de quem trabalha muito. Mas não é. O corpo curvado é o jeito de quem não se sente no direito de ocupar o espaço. É o jeito de quem aprendeu que a rua não é sua, que o banco da praça não é seu, que o sol não é seu.
E, quando a gente entende isso, alguma coisa muda. Pelo menos, mudou em mim.
Comecei a prestar atenção em como eu andava. E percebi que eu andava como quem pede licença. Cabeça baixa, passos rápidos, corpo encolhido. Como se a cidade fosse de outra pessoa — e eu estivesse apenas de passagem. Um dia, decidi andar diferente. Não foi uma grande decisão. Foi uma coisa pequena. Levantei a cabeça. Olhei para o céu. Diminuí o passo. Deixei o corpo ocupar o lugar que era dele. E, nesse simples diminuir o passo, descobri uma coisa que eu não esperava: prazer. O prazer de sentir a própria cidade sem pressa, sem estar apenas atravessando-a a caminho de outro lugar.
E, junto com o passo, veio a roupa. Não foi uma decisão consciente, no começo. Foi só um impulso. Abri o armário e, em vez da blusa larga de sempre, peguei uma blusa mais justa. Em vez da calça solta, peguei uma saia mais curta. E aqui preciso parar um instante, porque essa escolha carrega um peso que vai além do gosto pessoal. Vivemos numa cultura em que a roupa de uma mulher é tratada como prova de caráter — quanto mais coberta, mais “séria”; quanto mais à mostra, mais “provocação”. Não é exagero, é história recente: no Brasil, não faz tanto tempo assim, mulheres que ousavam usar calça comprida eram vistas como se fossem prostitutas, inclusive pelas outras mulheres. Uma peça de roupa bastava para decidir o valor moral de uma pessoa. E, infelizmente, continua decidindo. Isso é machismo puro, e vai na contramão de qualquer sociedade que se pretenda livre. Ninguém tem o direito de ler minha vida, minha índole ou minha disponibilidade a partir do comprimento da minha saia.
Por isso, quando escolhi aquela roupa, não escolhi para ser vista de um jeito específico. Escolhi para parar de me vestir em função do julgamento alheio — o que é bem diferente de me vestir em função do olhar alheio. Foi estranho, no começo. Senti-me exposta. Mas percebi, rápido, que a exposição que eu temia era a de ser julgada, não a de ser vista. E essas são coisas bem diferentes. Ninguém me parou na rua. Ninguém me olhou torto. A cidade continuou a mesma. Mas eu não. Eu senti o sol no rosto. Senti o vento no cabelo. Senti o chão sob os pés. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava com pressa de chegar. Eu estava ali. Presente. No meu corpo. Na roupa que escolhi. Na minha cidade.
Talvez isso pareça pouco. Discurso nenhum, protesto nenhum, cartaz nenhum. Mas, para quem passou anos se encolhendo — e se vestindo para não ser notada, para não ser julgada, para não correr risco —, escolher a própria roupa e o próprio passo é uma revolução do tamanho de uma pessoa só. Pequena na escala, grande no significado. A gente não precisa esperar que o mundo pare de julgar para começar a existir sem pedir licença. A gente só precisa lembrar que o corpo é nosso. Que a rua é nossa. Que a cidade é nossa. E que o direito de existir não se pede — se exerce.
Hoje, quando eu ando pela rua, eu não ando mais como quem pede licença. Ando como quem mora ali. Porque eu moro. E o corpo que ocupa o espaço não é um estorvo. É uma presença. É a minha presença — vestida do jeito que eu quiser, sem que isso autorize ninguém a tirar conclusão nenhuma sobre quem eu sou.
Quero que mais mulheres sintam esse mesmo prazer de andar pela própria cidade sem pressa e sem medo do julgamento. Não porque a rua vá mudar da noite para o dia — mas porque, quando o corpo aprende que tem direito ao espaço, ele já não volta a se encolher do mesmo jeito.
