Cássia Kerlinner
Outro dia, uma sobrinha minha, de dezenove anos, me mostrou o perfil dela numa rede social. Fotos bem cuidadas, legendas pensadas, uma identidade visual coerente do primeiro ao último post. Perguntei se ela gostava de fazer aquilo. Ela pensou um pouco e respondeu: “gosto, mas também é cansativo. É como se eu precisasse decidir, todo dia, quem eu vou ser para as pessoas verem.”
Fiquei pensando nessa frase por dias. Porque ela captura uma coisa que atravessa muito mais do que redes sociais: decidir quem a gente vai ser para os outros verem é um trabalho que as mulheres fazem desde muito antes da internet existir. Só que hoje esse trabalho ganhou métrica, ganhou like, ganhou notificação de novo seguidor.
Recentemente, li “O Segredo das Influenciadoras de Sucesso”, livro da Paula Cassim sobre os bastidores de quem transforma presença digital em carreira. É um livro prático, cheio de estratégia — posicionamento, mídia kit, monetização, esse tipo de coisa. Mas o que ficou comigo não foi nenhuma dessas ferramentas. Foi uma pergunta que a leitura me deixou, nas entrelinhas, sem que o livro precisasse fazer por mim: o que significa, para uma mulher, decidir ser vista?
Porque não é uma decisão neutra. Uma mulher que decide aparecer — na internet, no trabalho, numa festa, numa sala cheia — carrega um histórico de julgamento que um homem raramente carrega do mesmo jeito. Se ela aparece demais, é vaidosa. Se aparece de menos, é apagada, sem personalidade. Se fala com confiança, é arrogante. Se fala hesitante, não tem o que dizer. A régua está sempre errada, dependendo de quem segura ela naquele dia.
Toda influenciadora de sucesso, então, é antes de tudo uma mulher que decidiu se expor a essa régua repetidamente, todos os dias, em público, sabendo que vai errar a medida com uns e acertar com outros — e que vai ter que continuar aparecendo mesmo assim.
Isso não é exclusivo de quem vive de rede social. É a mesma régua que se aplica à mulher que decide falar numa reunião de trabalho em vez de deixar o colega falar por ela. À que sobe no palco. À que assina o próprio nome embaixo do próprio trabalho, em vez de deixar que ele passe despercebido, seguro, invisível. Ser vista sempre custou mais caro para nós — e, por isso mesmo, escolher ser vista continua sendo, disfarçado de trivialidade digital, um gesto que exige coragem.
Não estou dizendo que toda mulher deveria querer ser influenciadora, nem que aparecer é obrigação de ninguém. Tem muita força também em quem escolhe não aparecer, em quem constrói a vida longe de holofote nenhum. A questão não é o holofote em si — é que essa escolha, seja qual for, devia ser inteiramente nossa. Não decidida pelo medo do julgamento, nem pela régua errada segurada por quem está de fora.
Minha sobrinha vai continuar postando as fotos dela, decidindo quem mostrar ao mundo a cada legenda. Espero que, com o tempo, ela decida isso cada vez menos pensando em quem está olhando, e cada vez mais pensando em quem ela realmente é quando ninguém está.
