Tecnologia usada por bancos, lojas e plataformas digitais facilita confirmações de identidade, mas dados biométricos não podem ser substituídos depois de um vazamento ou uso indevido
Abrir uma conta, pedir crédito, confirmar uma compra ou recuperar o acesso a um aplicativo já pode exigir uma selfie. A biometria facial ganhou espaço em bancos, lojas e serviços digitais como instrumento de validação de identidade. A facilidade, porém, traz um risco particular: diferentemente de uma senha, o rosto não pode ser alterado se for copiado, vazado ou usado de forma fraudulenta.
O alerta é do advogado criminalista Rodolfo Nóbrega Luz, do escritório Cardella Advogados. Para ele, a expansão dessa tecnologia precisa vir acompanhada de mecanismos de segurança mais robustos e de cuidado por parte dos usuários, especialmente diante da disseminação de imagens nas redes sociais e do avanço de recursos de inteligência artificial capazes de criar vídeos falsos, os chamados deepfakes.
Uma senha comprometida pode ser bloqueada e substituída. O mesmo não ocorre com uma característica biométrica. Se criminosos conseguem enganar um sistema com fotos, vídeos manipulados ou outros recursos que reproduzam o rosto de uma pessoa, a vítima não dispõe de uma forma simples de “reiniciar” essa identificação.
Por isso, depender exclusivamente de uma verificação facial pode deixar consumidores vulneráveis. A biometria tende a ser mais segura quando faz parte de uma combinação de barreiras — como senha, confirmação no aplicativo oficial, código temporário e análise de comportamento — e não quando é usada como único requisito para autorizar operações financeiras.
Segundo Rodolfo Nóbrega Luz, as fraudes costumam seguir dois caminhos principais. No primeiro, os golpistas agem sem contato direto com a vítima: recorrem a fotos publicadas em redes sociais, imagens obtidas em vazamentos de dados ou vídeos falsificados para tentar burlar a validação facial de bancos e aplicativos.
No segundo caso, a fraude depende de uma abordagem direta. A pessoa recebe um link, uma ligação ou uma mensagem com um pretexto aparentemente inofensivo: atualização cadastral, liberação de benefício, confirmação de prêmio ou regularização urgente de uma conta. A partir daí, é induzida a fazer a leitura facial fora dos canais oficiais da instituição.
O problema é que esse procedimento pode ser usado para permitir ações realizadas em nome da vítima, como abertura de conta, contratação de empréstimo ou movimentação de valores. Por isso, pedidos de reconhecimento facial recebidos por links, mensagens ou contatos inesperados devem ser tratados com desconfiança até que sua autenticidade seja confirmada.
A urgência é uma ferramenta comum nesse tipo de crime. Golpistas podem se passar por funcionários de banco e afirmar que há uma transação suspeita em andamento, ou criar falsas emergências envolvendo familiares. A intenção é reduzir o tempo de reflexão e levar a pessoa a agir antes de verificar a informação.
“A vítima é desarmada de sua prudência ordinária e impelida a transferir valores por vontade própria, conquanto viciada na origem”, afirma Rodolfo Nóbrega Luz. Ligações não solicitadas, pressão para agir imediatamente e mensagens que provocam medo ou ansiedade são sinais de alerta, seja por telefone, WhatsApp ou outros aplicativos.
O advogado observa que esse tipo de golpe integra um cenário mais amplo de estelionatos no país. Os dados disponíveis costumam reunir diversas modalidades de fraude, o que dificulta estimar com precisão quantos casos envolvem especificamente reconhecimento facial ou biometria. Ainda assim, a combinação entre circulação intensa de imagens pessoais, engenharia social e ferramentas de inteligência artificial amplia as possibilidades de exploração indevida da identidade das pessoas.
Na avaliação de Luz, penas mais severas, embora importantes, não bastam para enfrentar a fraude digital. A Lei nº 14.155/2021 aumentou punições para crimes de fraude eletrônica, mas grupos envolvidos nesses delitos podem atuar à distância, de maneira fragmentada e, em alguns casos, a partir de presídios ou de outros países. A resposta, portanto, exige investigação especializada, segurança tecnológica e educação digital.
Outro fator que pode dificultar o combate ao problema é a vergonha. Muitas vítimas de estelionato se sentem culpadas por terem acreditado em uma abordagem falsa e acabam deixando de registrar ocorrência ou buscar ajuda. Esse silêncio contribui para que o número oficial de casos seja menor que a dimensão real das fraudes.
Em caso de dúvida sobre uma solicitação de biometria facial, a orientação é interromper o contato e procurar a instituição diretamente pelos seus canais oficiais — aplicativo instalado no celular, site digitado no navegador ou telefone obtido no cartão ou na página oficial. Links, números e instruções enviados pelo suposto atendente não devem ser usados para confirmar a informação.
