Cássia Kerlinner
Numa noite destas, percebi que não me lembrava da última vez em que tinha olhado para o céu. Não de relance, de janela de carro, mas de verdade — parada, com a cabeça erguida, olhando para cima. E isso me incomodou. Porque uma pessoa que não olha para o céu é uma pessoa que está sempre olhando para baixo, para a tela, para o próximo compromisso, para o chão que pisa. É uma pessoa que está com pressa.
A pressa virou uma espécie de virtude dos nossos tempos. A gente aprende a fazer tudo rápido, a responder na hora, a estar sempre disponível, a encaixar mais uma tarefa entre duas outras. A agenda fica cheia, o celular não para, a mente não descansa. E, quando a gente percebe, o dia acabou — e a gente não viveu nenhum momento dele de verdade. A gente só passou por ele, de passagem, a caminho de outra coisa.
Eu vivi assim durante muito tempo. E o cansaço que eu sentia não era só físico. Era um cansaço de alma, desses que não passam com uma noite de sono. Até que um dia eu decidi fazer uma coisa simples: desacelerar. Não parar — desacelerar. Escolher uma coisa por vez. Sentar sem celular. Comer sem pressa. Ouvir alguém até o fim, sem já estar pensando no que eu ia responder. E, à noite, sair para caminhar.
Foi na primeira caminhada noturna que eu entendi o que estava perdendo. A rua, à noite, é outra coisa. O ar é mais fresco, o som é mais baixo, o tempo parece correr em outra velocidade. E o céu — quando a gente está longe da iluminação excessiva, quando a cidade se apaga um pouco, quando a gente levanta a cabeça — o céu se abre. Não prometo Via Láctea: isso exige um escuro raro, quase rural, que a maioria de nós não tem à disposição numa esquina qualquer. Mas prometo mais estrelas do que você está acostumada a ver — um céu que, por alguns minutos, para de disputar espaço com a luz do poste e vence essa disputa, nem que seja um pouco.
Eu moro numa cidade grande, e sei que nem sempre dá para ver o céu direito. Sei que a iluminação urbana rouba as estrelas, e que a segurança exige cuidado. Mas descobri que dá para caminhar com atenção — escolhendo ruas movimentadas, evitando horários mais vazios, mantendo o celular carregado, avisando alguém que a gente saiu. E descobri também que, em cidades menores, seja do interior, seja do litoral, o céu costuma ser mais generoso, com menos luz artificial disputando o espaço. Basta sair de casa à noite, caminhar até a praia e ouvir o som do mar, um parque, uma praça, uma rua mais afastada, e levantar a cabeça. O céu está lá. Sempre esteve — só esperando que a gente disputasse menos ele com a cidade.
Não é nada de grandioso. É sobre lembrar que o corpo tem um ritmo próprio — e que a gente pode escolhê-lo. A mulher que decide caminhar à noite, que decide olhar o céu, que decide andar devagar, está exercendo um direito que ninguém deveria tirar dela: o direito de ocupar o próprio tempo. Não o tempo do trabalho, não o tempo das obrigações, não o tempo dos outros. O tempo dela.
Tem gente que mede o valor de um dia pelo tanto que produziu nele. Eu prefiro medir pelo tanto que percebi dele. E uma caminhada devagar, à noite, com a cabeça erguida, rende mais nesse segundo critério do que uma tarde inteira de tarefas cumpridas em piloto automático. Não é sobre fazer menos — é sobre notar mais o que já se faz.
Hoje, quando eu ando à noite, eu não ando mais como quem está fugindo de alguma coisa. Ando como quem está chegando. Chegando a mim mesma, ao meu corpo, ao meu ritmo. E, quando olho para cima e vejo as estrelas que a cidade deixou passar, eu respiro fundo e penso: é isso! É aqui! É agora! E o resto pode esperar.
Se você puder, saia esta noite. Mesmo que seja só até a esquina. Olhe para cima. Sinta o frescor. O céu está lá, com o pouco ou o muito que ele conseguir mostrar. E o tempo, esse, é inteiramente seu.
