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O abraço que a gente não dá, mas que eu queria receber

Cássia Kerlinner

Alguém me abraçou esta semana. Não foi um abraço de cumprimento, desses que duram dois segundos e já vêm com a mão batendo nas costas para sinalizar que pode soltar. Foi um abraço demorado. Daqueles em que a gente encosta a cabeça no ombro do outro e sente o corpo relaxar sem pedir licença. E, quando ele acabou, eu percebi que fazia muito tempo que ninguém me abraçava assim.

Fiquei pensando nisso depois. Em como a gente vive num mundo que ensinou a gente a não tocar. E, quando eu digo “a gente”, eu quero dizer a gente dentro de casa. A gente aprendeu a não abraçar demorado o filho que já está grande. A não pegar no colo a criança que pede. A não encostar no ombro do pai que está calado. A não segurar a mão da mãe que está doente. A não abraçar a avó que mora sozinha. Dentro de casa, a gente aprendeu a manter distância — e chama isso de respeito, de maturidade, de não incomodar.

Mas nem sempre é respeito. Às vezes é medo — do corpo, da intimidade, de parecer fraco por precisar de alguém. Às vezes é hábito herdado, repetido sem exame, de casas onde já não se tocava. E às vezes é um mal-entendido sobre o que significa respeitar o espaço do outro: confundir dar espaço com não oferecer nada. Seja qual for a origem, o resultado é parecido — a ideia de que o corpo é um problema, de que o toque é intimidade demais, de que a gente deve bastar a si mesma. E, no meio disso tudo, a mulher aprende uma lição a mais: que ela não deve pedir. Que ela não deve querer. Que ela deve esperar que o outro adivinhe. E, se ninguém adivinha, ela se cala, se encolhe, se esquece de que o corpo dela também tem fome de contato.

A criança que pede colo e ouve que já está grande aprende a não pedir mais. O adolescente que se fecha no quarto e ninguém percebe que é um pedido de ajuda aprende a se virar sozinho. O idoso que fica sozinho, esperando uma visita que nunca chega, aprende a não esperar mais. E a mulher — a mãe, a filha, a irmã, a avó — que cuida de todos, aprende a não receber. Ela abraça, mas não é abraçada. Ela cuida, mas não é cuidada. Ela toca, mas não é tocada.

E, quando a gente não é tocada em casa, a gente vai para a rua com fome. Fome de abraço, de encosto, de calor. E, na rua, a gente também não toca. Cumprimenta com a mão, com o punho, com o cotovelo. Mantém distância do vizinho, do colega, do amigo. A gente aprendeu a viver sem toque — e a chamar isso de civilidade.

Vale abrir um parêntese aqui, porque oferecer toque não é a mesma coisa que impor toque. O contato que a gente quer resgatar é o que se oferece, não o que se força — a criança que não quer colo naquele momento, o adolescente que prefere o silêncio, o adulto que hoje não está com vontade de abraço: todos têm o direito de dizer não, e esse não também precisa ser respeitado sem mágoa, sem cobrança. Reaprender a tocar é reaprender a perguntar, a oferecer, a notar o sim e o não do outro — não decidir sozinho que já é hora do abraço.

Mas eu não quero mais viver com a régua da distância. Eu decidi começar por casa. Abracei minha mãe demorado. Sentei no chão para brincar com a criança que pedia colo. Bati na porta do quarto do adolescente e fiquei lá, sem pressa, até ele querer falar. Liguei para a avó e fiquei no telefone até ela cansar. E, aos poucos, fui levando esse toque para fora. Para os amigos. Para os colegas. Para as pessoas que eu encontro na rua e que, como eu, também estão com fome de contato.

Deixar o abraço durar. Encostar a cabeça no ombro do outro e não se apressar a soltar. Pedir colo quando o corpo pede — e não esperar que o outro adivinhe. A pele tem memória, e a memória da pele não se apaga com distância. O corpo que aprende a receber contato não volta a se esconder do mesmo jeito.

Hoje, quando alguém me abraça, eu não me apresso a soltar. Eu deixo o abraço durar. Eu encosto a cabeça, fecho os olhos, sinto o corpo do outro contra o meu. E, por alguns segundos, o mundo inteiro desaparece. Fica só o toque. Fica só a presença. Fica só a certeza de que, por um instante, a gente não está sozinha.

Outro dia desses, liguei para minha mãe só para ouvir a voz dela. No fim da ligação, falei: “na próxima vez que a gente se vir, eu quero um abraço bem demorado”. Ela riu, meio sem graça, mas prometeu. E foi por aí que percebi: às vezes basta avisar que a gente quer, para que o toque volte a acontecer.

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