Cássia Kerlinner
Outro dia, no carro, o rádio tocou uma canção antiga e eu demorei para lembrar o nome. “Non ho l’età”, cantada por uma adolescente italiana de dezesseis anos, em 1964. A letra é simples: uma menina diz ao namorado que ainda não tem idade para ficar a sós com ele, que ele precisa esperar, que um dia — quando ela finalmente tiver idade — vai amá-lo com todas as forças. Fiquei ouvindo, parada no trânsito, e pensei: que mundo era aquele, em que uma garota precisava cantar publicamente que não tinha permissão para estar sozinha com quem amava?
Não é uma pergunta retórica. Era assim mesmo. Namoro, até poucas décadas atrás, era coisa vigiada. Namorar na sala, com a porta aberta, com alguém de olho. Sair em grupo, nunca a sós. Voltar para casa num horário definido por quem não estava vivendo aquele amor, mas se sentia no direito de administrá-lo. A liberdade de dois adolescentes ficarem sozinhos, conversando, se descobrindo, não era um direito — era uma exceção que precisava ser negociada, implorada, ou simplesmente não acontecia.
Hoje, isso mudou. Adolescentes namoram com uma autonomia que a garota de “Non ho l’età” não podia nem sonhar. Ficam a sós, decidem seu próprio ritmo, escolhem quando e como avançar numa relação sem precisar de um adulto por perto, decidindo por eles o que é ou não permitido sentir.
Eu não vejo isso como decadência de costumes, como alguns gostam de repetir. Vejo como o fim de uma vigilância que nunca protegeu ninguém de verdade — só empurrou para debaixo do tapete o que ia acontecer de um jeito ou de outro, sem conversa, sem orientação, sem confiança. Uma vigilância que tratava o desejo adolescente como algo a ser reprimido, em vez de algo a ser compreendido e acompanhado com diálogo.
Mas toda liberdade nova pede uma responsabilidade à altura. E aqui está o ponto que mais me interessa: a liberdade de estar a sós, de escolher, de conduzir a própria relação, só faz sentido quando vem acompanhada do respeito ao próprio corpo e ao do outro. Não o respeito de quem tem medo, mas o de quem entende que o corpo é seu, que suas escolhas sobre ele são suas, e que ninguém — nem parceiro, nem pressão de grupo, nem ansiedade de “provar” alguma coisa — tem o direito de apressar aquilo que só deveria acontecer quando a pessoa quiser, com clareza, sem dúvida, sem medo de decepcionar quem está do outro lado.
É curioso pensar que a menina da canção prometia amar “com todas as forças” quando finalmente tivesse idade — como se o amor, contido por tanto tempo, precisasse de uma data para ser liberado. Hoje, a data não existe mais como antes. O que existe, no lugar dela, é uma pergunta mais difícil e mais honesta: estou pronta? Isso é o que eu quero, ou é o que esperam de mim? Consigo dizer não, se for preciso, sem medo de perder o outro?
Essas perguntas não tinham espaço na vigilância antiga — porque a vigilância decidia por quem devia decidir sozinho. E não deveriam ter resposta única, decidida por mim ou por qualquer texto de blog. Cada adolescente vai construir a própria resposta, no próprio tempo, e o papel de quem ama essa adolescente — pai, mãe, tio, professora — não é vigiar a porta fechada, mas estar por perto para conversar quando a dúvida aparecer.
A garota de 1964 cantava pedindo tempo. A liberdade que os adolescentes de hoje têm não é a de dispensar o tempo — é a de ser dona dele. De decidir o próprio ritmo sem precisar prometer, cantando, que vai esperar até merecer permissão para amar.
