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Nem todo sofrimento é doença: por que precisamos validar a dor de viver?

Cássia Kerlinner

Vivemos uma época estranha. Nunca se falou tanto em saúde mental, nunca se buscou tanto por autoconhecimento, nunca se nomeou tanto o que sentimos. E, no meio disso tudo, algo importante parece ter se perdido: a capacidade de distinguir sofrimento humano de transtorno mental.

Diante de uma verdadeira epidemia de diagnósticos, a psicóloga Flávia Albuquerque defende algo que soa quase revolucionário: nem toda dor precisa de um nome clínico. Nem todo choro é depressão. Nem toda angústia é ansiedade patológica. Às vezes, sofrer é só sofrer. E tá tudo bem.

No livro Despatologiza – A Vida que Não Cabe no Diagnóstico Psiquiátrico, lançado pela Editora Rocco, Flávia problematiza a medicalização e a medicamentalização da vida sem perder a sensibilidade de reconhecer que, por trás de um CID, há alguém em sofrimento. E é exatamente aí que tá o ponto: a gente virou especialistas em rotular. Perdeu o emprego? Ansiedade. Terminou um relacionamento? Depressão. Tá se sentindo vazio? Talvez seja um transtorno. Como se dar nome à dor fosse a única forma de validá-la. Como se, sem um diagnóstico, o que sentimos não fosse real o suficiente.

Mas e se a gente estivesse confundindo dor de viver com doença?

O sofrimento faz parte da condição humana. Perder alguém que a gente ama dói. Ser demitido dói. Se sentir sozinho dói. E isso não significa que estamos doentes. Significa que estamos vivos, passando por coisas difíceis, humanas demais.

Quando medicalizamos tudo, corremos o risco de invalidar a própria experiência. Em vez de acolher a dor, a gente tenta silenciá-la com um nome, um remédio, uma etiqueta. E, no processo, perdemos algo essencial: a chance de sentir, de elaborar, de atravessar.

Isso não significa que transtornos mentais não existam. Eles existem, são reais, e quem precisa de tratamento deve ter acesso a ele. Mas também não significa que toda tristeza seja depressão, ou que toda preocupação seja ansiedade patológica.

Precisamos reaprender a distinguir.

Precisamos validar a dor de viver sem transformá-la em doença. Precisamos acolher o sofrimento sem correr para o diagnóstico. Precisamos entender que, às vezes, a cura não vem de um nome — vem de um abraço, de um “eu te vejo”, de um “tá tudo bem você se sentir assim”.

Porque você não precisa de um diagnóstico para validar sua dor.

Você só precisa de si mesma. E de alguém que te diga: “eu entendo. isso dói mesmo. e você não tá sozinha”.

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