Cássia Kerlinner
A menina da foto tem o cabelo preso e a blusa do uniforme. Ela não olha para a câmera. A mãe está ao lado, séria, a mão no ombro da filha. Atrás delas, uma parede de azulejo branco, daquelas de posto de saúde. A foto não tem legenda. Não precisa.
Eu fiquei com essa foto na cabeça por dias. Não sei quem é a menina. Não sei onde ela está agora. Talvez esteja na escola. Talvez esteja em casa, cuidando de uma criança que nasceu quando ela ainda tinha boneca. Talvez esteja em algum lugar que a gente prefere não imaginar.
Os números que acompanham essa foto eu já tinha lido antes. Mais de 250 mil meninas de 10 a 14 anos tiveram filhos entre 2010 e 2019. Em 2020, foram 17.579. Setenta e cinco por cento negras. Eu li esses números tantas vezes que já sei de cor. E é justamente por saber de cor que eles pararam de doer. A gente se acostuma. A gente aprende a ler “48 por dia” como se fosse uma informação, não uma menina.
O que me devolve o incômodo é a foto. É o cabelo preso. É a blusa do uniforme. É a mão da mãe no ombro. Porque a mãe está ali. E a menina não está olhando para a câmera. Ela está olhando para o lado, para alguma coisa fora do enquadramento, alguma coisa que a gente não vê.
Eu penso muito nesse “fora do enquadramento”. A gente discute a gravidez, discute o aborto, discute a lei, discute a política pública. A gente discute tudo o que está dentro da foto. Mas a menina está olhando para o lado. E o que está do lado de fora da foto é o que ninguém quer discutir: o quarto ao lado, a porta fechada, o amigo da família que todo mundo acha simpático, o silêncio que se instalou naquela casa antes de a foto ser tirada.
A foto não mostra o agressor. A foto nunca mostra. Mostra a menina, mostra a mãe, mostra a parede de azulejo. Mostra o resultado. Mas o processo — o que aconteceu antes, quem fez, quem sabia, quem calou — esse não cabe no enquadramento. E é por isso que a gente consegue olhar para a foto e sentir pena, sem sentir raiva. A raiva precisa de um nome. A foto não dá nome a ninguém.
Eu não sei o que aconteceu com a menina da foto. Não sei se ela voltou para a escola. Não sei se a mãe continua sorrindo. Não sei se alguém, em algum momento, perguntou a ela o que tinha acontecido — e esperou a resposta até o fim, sem desviar o olhar.
O que eu sei é que fotos como essa existem e não são poucas. E que, enquanto elas existirem, alguém vai precisar olhar para o lado, como a menina está olhando. E o que está lá fora do enquadramento não vai se nomear sozinho.
