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Foto Crédito: Mika Baumeister/Unsplash.

Proteger não é trancar mais portas! Quando o perigo é a pessoa em quem você mais confia

Cássia Kerlinner

Existem notícias que a gente lê e esquece. Outras a gente lê e o corpo congela. Foi o que aconteceu quando me deparei com duas reportagens no mesmo dia na internet.

A primeira vinha da Argentina: uma ex-freira, de 51 anos, foi condenada a 20 anos de prisão por abusos sexuais contra crianças surdas, num instituto religioso em Mendoza. A sentença ainda não é definitiva: ela segue em liberdade enquanto a defesa recorre (leia a notícia completa aqui).

A segunda vinha de Santa Catarina: uma mãe foi presa, condenada por permitir que a própria filha, de 8 anos, fosse abusada. Segundo a Justiça, ela confessou que permitiu os abusos e que o agressor os registrasse em vídeo (leia a notícia completa aqui).

Duas mulheres. Duas figuras de proteção. Duas confianças traídas.

O que me faz escrever sobre isso não é o susto. É a constatação de que o perigo, quase sempre, não vem de um estranho no beco escuro. Ele vem de quem senta à nossa mesa. De quem reza ao nosso lado. De quem nos chama pelo nome com a maior ternura do mundo.

A gente cresce ouvindo para não falar com estranhos, não aceitar doces, não andar sozinha. E aprende que a proteção está do lado de fora: no muro alto, na grade da janela, na cerca elétrica, na câmera da esquina. Vendem tudo isso como segurança, e a gente compra, porque dá a sensação de que o mal vem de fora e pode ser trancado do lado de lá. Só que essas coisas não protegem de quem já está dentro, de quem tem a chave, de quem conhece a rotina da casa. E, enquanto a gente olha para a rua com medo, o perigo costuma estar em outro lugar.

Para entender a dimensão do que estou falando, fiz um pequeno levantamento de notícias sobre violência sexual publicadas entre 20 e 25 de setembro deste ano, no Brasil e no exterior: 66 casos distintos, depois de descartar notícias repetidas e relatórios. Ele não tem rigor estatístico: é uma amostra de notícias, e a imprensa não conta todos os casos. Mas o retrato que saiu dele é perturbador.

Quem sofre a violência? Nos casos em que a notícia informou o sexo da vítima, quase 9 em cada 10 eram mulheres ou meninas. E, entre os casos em que a idade apareceu, mais da metade envolvia ao menos uma vítima menor de 18 anos.

Quem comete a violência? Entre os casos em que a relação com o agressor ficou clara, mais de 6 em cada 10 eram pessoas da família, do convívio ou com autoridade sobre a vítima: pai, padrasto, avô, tio, vizinho, namorado, professor, pastor, patrão. Desconhecidos foram menos de 3 em cada 10.

Uma semana de notícias não prova nada sozinha. Mas esse retrato aponta na mesma direção dos números oficiais, que são ainda mais contundentes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados de 2025, mostra que 60,3% das vítimas de estupro e estupro de vulnerável tinham até 13 anos e que 87,8% eram do sexo feminino. Quando a vítima tem de 0 a 13 anos, o autor é familiar em 59,2% dos casos e conhecido em outros 36,9%: juntos, 96,1%. E 64,9% dos estupros de vulnerável acontecem dentro de casa.

Quase 96 em cada 100. Isso não é um desvio. É o padrão.

As duas histórias que abriram este texto, aliás, fogem do perfil mais comum. No recorte inédito que o Anuário fez sobre material de abuso sexual infantil, 86,5% dos registros têm só autores homens e 9,1% só autoras. Elas chamam atenção por isso. Mas têm em comum com a regra o que mais importa: a confiança. Alguém que, em tese, deveria proteger.

O abusador não tem cara de monstro. É o homem que paga as contas. É a mulher que reza o terço. É o religioso que cuida das crianças. É a pessoa em quem você mais confia. E é justamente por isso que o abuso pode durar anos, às vezes décadas, sem ser visto. Porque quem confia nem sempre enxerga. E isso não é culpa de quem confia.

Não tenho uma resposta fácil. Mas tenho uma certeza: confiar não é o problema. Criança precisa de adultos em quem confiar. O que precisa mudar é para onde a gente olha. Em vez de olhar só para a rua, olhar também para dentro de casa, mesmo quando dói admitir que quem machuca pode ser alguém que a gente ama. Proteger não é trancar mais portas. É estar perto o bastante para notar quando algo muda, e disposta a acreditar no que uma criança disser. Prestar atenção ao silêncio, ao “não foi nada”, ao “isso é coisa da sua cabeça”. Notar quando uma criança muda de comportamento, passa a ter medo de ficar a sós com alguém, chora sem motivo aparente. Esses sinais não provam nada sozinhos, mas merecem atenção e conversa. E acreditar quando alguém diz “isso está me machucando”, mesmo que quem esteja machucando seja a pessoa mais respeitável da casa.

O que fazer quando uma criança conta? Acreditar. Manter a calma, para ela não sentir que errou ao falar. Não pressionar por detalhes e não prometer segredo. E procurar ajuda: o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) recebe denúncias de violência contra crianças e adolescentes, com ligação gratuita, a qualquer hora. Dá para procurar também o Conselho Tutelar ou uma delegacia. Se houver risco imediato, ligue 190.

Talvez a pergunta não seja se a janela tem grade. Talvez seja se, dentro de casa, uma criança consegue dizer “isso está me machucando” e ser acreditada.


Se você viveu ou vive algo assim, não precisa passar por isso sozinha. Mulheres em situação de violência podem ligar para o Ligue 180; para crianças e adolescentes, o Disque 100; em emergência, 190. Para apoio emocional, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo 188.

Fontes

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