Cássia Kerlinner
Outro dia, assistindo a um episódio da série Os Últimos Czares, na Netflix, ouvi uma história que me fez parar.
A série conta a história da família de Nicolau II e da influência de Rasputin na Rússia do império, antes da revolução que levou ao comunismo naquele país. Mistura cenas encenadas com comentários de estudiosos da história russa, e isso já confunde: a gente não fica sabendo onde termina a ficção e onde começa a explicação histórica e pode achar que o que a série mostra é realmente o que aconteceu naqueles anos conturbados. Não é.
Então, antes de seguir, deixo um aviso: não considere essa série como fiel à História. Quando estreou, a imprensa russa apontou vários erros. Exemplo: uma imagem da Praça Vermelha de 1905 mostra o Mausoléu de Lênin, que só foi construído depois de 1924. E traz uma perigosa armadilha: com historiadores falando no meio das cenas, parece que tudo foi conferido. A gente assiste e acredita. Acesse os links no fim deste texto e verifique o que digo.
Mas as cenas que me prenderam servem apenas como ponto de partida para a minha conversa com você. Não como prova dos fatos. Mesmo porque o meu interesse é discutir algo que ainda está presente nas nossas vidas.
Numa passagem, vi cenas em que o místico Rasputin conhece pessoas que, segundo a série, adotavam o sexo grupal e o autoflagelo como práticas religiosas que levavam a encontrar Deus. Enquanto um dos historiadores descrevia a cena, eu assistia a homens e mulheres dançando em êxtase, nus, enquanto outros faziam o próprio corpo sangrar. Aquilo ficou na minha cabeça, e não foi só pela violência. Eu quis saber de onde vinha essa história e quanto dela era real.
Nessa busca, encontrei dois nomes: Khlysty e Skoptsy. A série tratou tudo como uma coisa só, mas eram dois grupos religiosos russos distintos, ainda que ligados historicamente.
Os Khlysty ficaram conhecidos por rituais de êxtase religioso e foram acusados de imoralidade sexual. Contaram-se histórias de orgias e de crimes rituais, no meio de perseguições religiosas e de investigações do Estado. Mas, gente, acusação não é prova. Saber que alguém foi acusado não basta para dizer que aquilo realmente fazia parte dos rituais.
Essa diferença importa. Um documento pode registrar que alguém foi acusado de uma prática sem provar que ela existiu. É apenas uma denúncia. Quando a gente conta a história de grupos perseguidos, é preciso perguntar também: quem escreveu essa história? Com que intenção? Em que situação?
Com os Skoptsy, a história é outra: há documentação sobre mutilações feitas como prática religiosa. Uma investigação de 1772 já registrava o grupo. Os homens se submetiam à castração. Entre as mulheres, há descrições de intervenções nos mamilos e nos seios, até a remoção. Tudo isso numa tentativa de acabar com o desejo sexual e alcançar uma pureza espiritual. Já quem descreve a cena na série repete o que se dizia à época: que os integrantes desse grupo se alimentavam do seio extraído de virgens.
Foi aí que meu incômodo tomou outra proporção.
Já não era só a história chocante que a TV me mostrava. Eu comecei a pensar numa mulher levada a acreditar que precisava ferir o próprio corpo para chegar perto de Deus.
Como se o que ela sentisse fosse um defeito. Como se desejar a tornasse impura. Como se a salvação pedisse que ela deixasse uma parte de si para trás.
A gente não sabe o que cada uma das mulheres que participavam desse grupo pensava ou sentia. E eu não quero preencher essa lacuna com certezas minhas. Mas saber que isso existiu me fez pensar na força de uma crença capaz de transformar o corpo em obstáculo.
A história de consumir partes do corpo pede outro cuidado. Documentar as mutilações não prova, por si só, que esse ritual existiu. Sem fontes históricas identificadas e verificadas, não acho responsável contar isso como fato. Vale manter a dúvida, mesmo quando a versão mais assustadora é a mais fácil de contar e aceitar.
O que ficou comigo
Não quero colocar no mesmo patamar coisas muito diferentes. O que nós, mulheres, enfrentamos hoje não é igual às mutilações de um grupo religioso da Rússia imperial.
Mesmo assim, essa história me fez olhar para uma pergunta que não ficou no passado: o que acontece quando a gente aprende a desconfiar do próprio corpo?
Penso na vergonha que vem junto de uma pergunta sobre sexo. Na dificuldade de falar de prazer sem sentir que precisamos pedir desculpa. No medo de dizer o que a gente quer — ou do que a gente não quer. Na culpa que muitas de nós carregam sem ter feito nada além de sentir.
Essa conversa é íntima e difícil. Porque falar do corpo não é só falar de aparência ou de saúde. É falar do que nos deixaram saber, das perguntas que pudemos fazer, das respostas que recebemos.
Às vezes a mulher chega à vida adulta sabendo muito sobre como deve se comportar e pouco sobre o que sente. Aprendeu a ser cuidadosa, discreta, desejável na medida certa. E talvez nunca tenha tido espaço para perguntar, livremente, o que lhe dá prazer, o que a incomoda, o que quer para si.
É aqui que a palavra culpa me parece tão importante.
Não como explicação única para a história dos Skoptsy, que merece ser entendida no seu contexto. Mas como o centro do que aquela cena mexeu em mim: alguém olhar para o próprio corpo e ver uma ameaça, em vez de uma parte de si que merece cuidado.
Não estou dizendo que toda fé faz isso. Nem reduzindo uma história complicada a religião contra liberdade. Escrevo porque a violência documentada me fez perguntar como uma promessa de pureza pôde tornar aceitável um sofrimento tão grande.
Os Últimos Czares me levou a essa história. A pesquisa me mostrou que era preciso separar os grupos, as práticas documentadas e as acusações. Mas o que ficou comigo foi uma imagem menos espetacular e mais difícil de esquecer: uma mulher acreditando que uma parte do seu corpo precisa desaparecer para que ela se considere pura.
Eu terminei pensando em como faz diferença encontrar palavras que não nos coloquem contra nós mesmas. Poder falar de desejo sem humilhação. Identificar e enfrentar limites sem se envergonhar. Procurar informação sem medo de parecer inadequada. Ter espaço para conhecer o corpo em que a gente habita.
É essa conversa que eu quero trazer para perto de nós.
Quando a gente é ensinada a sentir vergonha do que sente, nem sempre percebe de onde esse ensinamento veio. Talvez uma das perguntas mais íntimas que podemos nos fazer seja esta: essa culpa que está em mim é minha — ou alguém a colocou nos meus ombros e me fez carregá-la?
Fontes
Netflix — Os Últimos Czares: https://www.netflix.com/title/80211648
Wikipédia — Khlysts (verbete em inglês): https://en.wikipedia.org/wiki/Khlysts
Slavic Research Center, Universidade de Hokkaido — simpósio de 1994, cap. 1 (PDF): https://src-h.slav.hokudai.ac.jp/sympo/94summer/chapter1.pdf
Malay Mail — sobre o mausoléu de Lênin e o erro histórico: https://www.malaymail.com/news/showbiz/2019/07/17/bad-sex-and-fake-fur-russians-trash-the-last-czars/1772137
